Maestro Bogs - Sei Lá
“A cicatriz estranha na memória...”
Essa tal loucura é como se fosse tudo, e ao mesmo tempo nada de mais. Acompanha como uma sombra, se espreita, se esconde pelos vários caminhos do imprevisível. É, em parte, parte daquilo que nos é dado e é normal, o puro e simples reflexo à todas as adversidades do mundo, um chamado de nosso instinto a reagir àquilo que não é natural; noutra, é um pouco do sobrenatural e do mundano que absorvemos, corrompendo nosso corpo e a nossa alma diante das diferentes surpresas e indiferenças da vida.
No triste caminho que descrevi no capítulo anterior, há de se admitir que essa tal em parte nos uniu quando lhe foi conveniente, mas a mesma nos separou por capricho. Da loucura do corpo e do organismo, da loucura dos sentimentos, e também, da loucura dos outros, desses meios aonde nos ensinam loucuras em nome de Deus, da ordem ou o que quer que valha. Da loucura da violência legítima e do amor profano.
Parte da minha loucura se foi de mãos dadas com Ela, a outra está aqui, impressa em cada nota, cada som, cada fôlego que resta para cantar. De cada dor, de cada agonia, e das poucas e simples loucuras que nos fazem felizes também, gravo e registro em notas e desespero, é preciso gritar bem alto antes que vire tudo...
... pura e simplesmente loucura.
Um pouco de realidade (in)sensível:
No mês de agosto do ano de 1998, eu senti uma dor de cabeça estranha que se estendia por 3 dias e fui ao médico. O primeiro diagnosticou gripe e me mandou tomar aspirinas. Não acreditei, mas também não questionei, resolvi procurar outro médico no dia seguinte, e então, na hora do almoço quando já havia planejado ir ao médico, fui carregado pela minha família, em coma, direto para o pronto socorro.
Eis que veio o segundo diagnóstico: encefalopatia tóxica causada por uso de narcóticos fortes como, por exemplo, cocaína. Pois que todos os outros exames não apontaram nada, e em se tratando de um rapaz jovem, com toda saúde e sorte que gozam todos aqueles jovens dignos de preconceitos, e já que exames mais profundos eram caros, vamos as hipóteses mais “estatísticas” e transformamo-as em diagnóstico. Até mesmo um exame toxicológico fraudulento deu positivo para uma variedade razoável de substâncias que meu corpo nem mesmo conhecia, isso depois de ser desmentido por duas contra-provas. Engraçado como um exame rudimentar, antigo e barato como um eletroencefalograma, que costuma acusar esse tipo de contaminação, não foi levado em consideração.
Acordei depois de 10 dias e pouco antes, alguém teve a genial idéia de fazer uma tomografia, acusando uma “manchinha” que poderia ser um câncer ou um hemangioma. A ressonância magnética confirmou o hemangioma. A despeito do “tratamento respeitoso” que tive na minha cidade, fui operar em São Paulo. A cirurgia foi um sucesso e “aparentemente” não haviam seqüelas. Logo que acordei depois da cirurgia, meu primeiro impulso foi checar que estava enxergando, logo que o tumor se localizava na parte parietal do córtex direito. Num primeiro instante não consegui ler o número do apartamento impresso na televisão do hospital, mas consegui fazê-lo no dia seguinte.
Quando saí, reparei uma certa facilidade para me acidentar batendo em obstáculos, e ao sair na rua pela primeira vez, percebi que não tinha visto um poste de eletricidade até um palmo de distância do meu rosto. Esse sintoma foi o que mais me chamou a atenção, e veio me acompanhando desde então. Indagado à um neurologista, este deu mais atenção a hipótese de pequenos desvios de comportamento (psicose) e me passou e substituiu meu medicamento anti-convulsivo por outro de mesmo efeito, porém eficaz também nesses casos.
Cinco anos depois, suspendi a medicação pois não havia mais risco de convulsão. No começo, percebi apenas os benefícios de me livrar dos efeitos desse medicamento que me dopava, mesmo que num grau muito pequeno, mas com o passar dos anos os tais sintomas “comportamentais” se agravavam. Aumentou a ocorrência em não identificar objetos das mais diversas proporções, me levando a considerar o risco à mim e aos outros e parar de dirigir. Comecei a ter problemas de orientação, a me perder na rua e dentro de casa. Sinais de depressão foram aparecendo, talvez, mascarados pela minha personalidade sempre positiva, e para finalizar, as dolorosas contrações musculares nos braços voltaram. Numa primeira tentativa, fui à um neurocirurgião que foi bastante taxativo - “Está tudo bem, a cirurgia foi um sucesso e está completamente cicatrizado. Mas nós temos uma seqüela aí. Consulte um neuropsicólogo. Procurei por tal especialidade e não encontrei um com cobertura de meu convênio. Na segunda, minha psicóloga de costume me diagnosticou um quadro depressivo já preocupante, mas não fez nenhuma ligação dessa com a cicatriz. Fui encaminhado pelo convênio à um psiquiatra que não somente ignorou os tais sintomas que havia dito, mas também se apegou à um quadro familiar nada agradável para reafirmar a tal psicose. Meu desapontamento foi tamanho que tive vontade de lhe dar uma surra bem dada quando ele afirmou que os tais sintomas na parte da visão não passavam de delírios psicóticos. Como se não bastasse, tudo indicava que ele queria me tratar com estimulantes, e pesquisas que fiz relatavam efeitos negativos por vítimas de traumatismos na área parietal. A recusa ao tratamento me trouxe sérios problemas na convivência familiar.
Até que uma tia me indicou uma neuropsicóloga de confiança que tendo em mãos os exames de ressonância e o laudo da psicóloga, elucidou todo (ou parte) do caso. Nada de diagnósticos absurdos. É certo que a tal cicatriz, que se encontra alojada abaixo, e entre as áreas responsáveis pela visão e a parte psicomotora, além de atrapalharem na comunicação dessas, um campo eletromagnético irregular em volta poderia afetar a parte emocional causando a depressão. Comecei um tratamento com anticonvulsivantes de natureza semelhante ao que tomava antes e a melhora foi fantástica. Nem tudo são flores, ainda carrego aquilo que chamamos de déficit de campo visual, sintoma comum à quem sofre de dislexia e transtorno de atenção. Trabalhamos com duas hipóteses ainda não confirmadas, de deficit do cortes visual central, gerando um corte da visão, ou do secundário, afetando a área responsável entre ligar o que se enxerga ao entendimento daquilo que se vê.
Acredito que minha vida seria um pouco melhor se todos esses médicos que conheci durante esses dez anos tratassem hipóteses como tal, com um pouquinho de método científico, que seja.
Mas como nem tudo é enfermidade:
A música “Sei Lá” foi composta praticamente junto com Gaivota, do capítulo anterior, justo na época em que tais problemas se agravavam. Ela traduz o sentimento de prisão sentido por esse “sei lá” que eu estava sentindo, junto ao meu apego por trabalhar com meus amigos da dança, em produção de áudio.
Era a música favorita d'Ela.
De todas as músicas do passado que estou revendo, e das que estão terminando de nascer para vir para o blog, essa foi ao mesmo tempo a mais revigorante, e a mais dolorosa. Revisitar esses sentimentos todos me trouxe algum crescimento.
Essa música foi especialmente feita e dedicada à minha mais linda e mais querida musa da dança, colega companheira e guerreira nas artes, Flávia Studart. Talvez por identificação, por sentir que quando temos um igual (no sentido nerd do termo) brilhando no palco, é por que temos alguma chance...
...porque paixão quando não é feita de carne, e sim da luz do palco, da alma e do sentimento, nunca morre.
Renasce à cada cada nota, a cada palavra, movimento e sentimento.

4 comentários:
Meu pequeno afeto problemático. 8D
As coisas bonitas - e tristes - que você escreve me fazem chorar. Mas não é de tristeza, não é de dor.
É de alegria por ter conhecido uma pessoa tão talentosa, e tão especial como você.
eu sempre vi a presença do mar dentro do seu trabalho, Bogs, como uma metáfora zen a respeito de como as coisas repercutem na vida. Mesmo "Maresia" e seu "suicídio poético" contém um senso de retorno. "Sei lá" sempre me pareceu tão menos capaz de levantar o pescoço e olhar as ondas. O eu-lírico vai, consumido por essa apatia neurótica, e dá medo de que ele nunca mais volte.
Enfim, sei lá.
;)
Finalmente entendido o sentido dessa canção que eu tanto gosto! :)
Puro mais singelo, completo, mas imperfeito.
Amigo e verdadeiro, conselheiro e cúmplice.
Assim é meu amigo bogs
Teamodolo viu
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